O Papado no Antigo Testamento

«Não chores. Porque venceu o Leão da tribo de Judá, o rebento da dinastia de David; Ele abrirá o livro e os seus sete selos.» (Ap 5,5)

 

Os ataques ao Papa e ao Papado não são coisa nova. Desde o fim do primeiro milénio que a autoridade do sucessor de Pedro é posta em causa. Os ortodoxos dizem que o Bispo de Roma nunca exerceu nenhum direito especial na Igreja Primitiva. Os sedevacantistas acham que não temos Papa desde Pio XII. Os protestantes afirmam que o Papado foi uma invenção de Constantino para controlar os cristãos e segurar o Império. Porém, nós, católicos, cremos que o Papa é o sucessor de Pedro e possui autoridade suprema e infalível sobre a Igreja. Cremos não por intuição própria ou superstição irracional, mas porque o próprio Deus o revelou.

Jesus disse a S. Pedro: «Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na Terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu.» (Mt 16,19) Aqui, Jesus afirma e distingue S. Pedro do resto dos apóstolos, confiando-lhe as chaves da sua Igreja. Estabelece um ofício que une o Céu à Terra. Escolhe o seu representante no mundo e institui o Papado.

No entanto, isto não é evidente para muitos cristãos. Os ortodoxos dizem que nesta passagem o poder de ligar e desligar é dado a todos os apóstolos e não somente a Pedro. Para os protestantes, o poder de ligar e desligar foi dado a todos e a cada um de nós, à suposta «Igreja Invisível». Há quase tantas interpretações desta passagem como há intérpretes, e isto é um problema grave para aqueles que acreditam que existe uma só Verdade. Jesus não ensinou uma verdade para os gentios e outra para os judeus, como não ensina uma verdade para os católicos e outra para os protestantes. A Verdade não é protestante, não é ortodoxa, é Una, é Santa e é Católica.

Mas como podemos saber qual a interpretação correcta de uma passagem bíblica? Devemos começar por fugir do erro de retirar o sentido mais literal, mais cru e mais “puro” possível das Sagradas Escrituras. Para além de impossível, a ideia é absurda. Quase todas as frases podem ter mais do que uma interpretação perfeitamente válida e lógica. Os protestantes caíram nesta armadilha e o desastre está bem à vista. O que, de facto, nos faz chegar à interpretação correcta da Sagrada Escritura é, em primeiro lugar, ouvir o que o Magistério da Igreja tem para nos ensinar e depois estudar o contexto histórico daquilo que foi escrito.

Como podemos então saber que esta passagem se refere, de facto, ao Sumo Pontífice, supremo e infalível? Porque o que Jesus disse a S. Pedro é algo que tem as suas raízes na cultura judaica e foi prefigurado no Antigo Testamento.

Esta unidade entre o Antigo e o Novo Testamento revela-se muitas vezes através de tipologias que, segundo o Catecismo, «descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado.» (CIC 128). As tipologias mais conhecidas poderiam ser Jesus como o Novo Adão, Nossa Senhora como a Nova Eva, a Nova Arca da Aliança, a Igreja Católica como a Nova Israel, etc.

Ver S. Pedro como o Novo Eliaquim ilumina a nossa compreensão do que é o Papado.

«Naquele dia, chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias. Vesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com a tua faixa, porei nas suas mãos o teu poder; será como pai para os habitantes de Jerusalém, para o povo de Judá. Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá.» (Is 22,20-22).

Depois de ter deposto Chebna, Eliaquim foi eleito por Deus para administrador do palácio real pondo «sobre os seus ombros a chave», uma posição de muitíssima importância. Muitos estudiosos comparam o ofício de Eliaquim com o que José, filho de Jacob, exerceu no Egipto, sob o comando do Faraó. O palácio e todas as posses do Faraó foram postas ao cuidado de José. «Tu mesmo serás o chefe da minha casa; todo o meu povo será governado por ti e somente pelo trono é que serei maior do que tu.» (Gn 41,40). O administrador tinha o poder de fechar e de abrir as portas do palácio e de decidir quem tinha acesso ao Rei. No Novo Testamento, Jesus repete este gesto e escolhe S. Pedro como seu administrador, dando-lhe as chaves do Seu palácio: a Igreja, confiando-lhe o Seu povo e todos os Seus bens espirituais.

Muitos atacam esta tipologia e dizem que não se pode comparar S. Pedro com Eliaquim, porque o Papa exerce um poder espiritual enquanto Eliaquim exerce apenas um poder temporal. Isto é falso. No livro de Isaías, Deus afirma: «Vesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com a tua faixa» (Is 22,21) A túnica e a faixa são as vestes sacerdotais que Deus ordenou a Moisés no livro do Êxodo. Eliaquim é administrador, sim, mas também é sacerdote. O Papa é, assim, administrador da Igreja, e também sacerdote. Ele exerce tanto o poder temporal como o espiritual.

Eliaquim e S. Pedro são ambos comparados a objectos firmes. Eliaquim foi fixado «como prego em lugar firme» (Is 22,23) e S. Pedro, no mesmo discurso onde Jesus lhe dá as chaves diz: «e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja» (Mt 16,18). Algo que me pareceu interessantíssimo é que Deus diz que Eliaquim «o prego fixado em lugar firme cederá, a carga que dele pendia soltar-se-á, cairá e será feita em pedaços.» (Is 22,25). Deus parece dizer que Eliaquim irá, eventualmente, falhar na sua responsabilidade de protecção do palácio. E que tudo o que se apoiava nele irá cair. No entanto, Jesus elege um administrador mais perfeito que Eliaquim, digno da Nova Aliança, que nunca deixará que a sua Igreja se perca quando diz: «e as portas do Inferno nada poderão contra Ela.»

O contexto político destas duas figuras é, também, muito semelhante. Eliaquim foi eleito administrador do palácio antes do ataque a Jerusalém (Judá) pelo exército de Senaquerib, retratado no capítulo 36 do livro de Isaías, que ocorreu no ano 701 a. C. S. Pedro foi escolhido como o primeiro Papa algures entre o ano 30 e 33, que precedeu o famoso cerco a Jerusalém no ano 70, pelo Imperador Tito.

O último paralelo, e a meu ver o mais importante, é o de Jesus como concretização da promessa feita ao profeta Natan:

«Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. Ele construirá um templo ao Meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio. Eu serei para ele um pai e ele será para Mim um filho.» (2 Sm 7,12-14)

O Anjo Gabriel, na anunciação a Nossa Senhora, confirma que o Fruto do Seu ventre é a concretização desta profecia: «Será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de Seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim.» (Lc 1,32-33) Jesus, descendente de David, veio estabelecer a nova monarquia davídica, o novo Reino de Israel e escolheu para o Seu palácio um administrador: o Papa.