Amigos de Deus

Virtudes teologais — 5.ª parte

 

Caro leitor do Instituto São Teotónio, muito obrigado por ter esperado caridosamente e cheio de fé, por este último artigo sobre as virtudes teologais. Este último dedicaremos à mais importante das três: a Caridade.

Escusado será dizer que todo este percurso de reflexão sobre as virtudes teologais foi feito “na escola” de São Tomás de Aquino. O tomismo não é uma simples opção teológica entre muitas outras. Na verdade, caro leitor, o tomismo é a escolha predilecta da Igreja. Esta predilecção foi reafirmada pelo Magistério inúmeras vezes, sobretudo a partir do papa Leão XIII (encíclica Aeterni Patris), até aos dias de hoje: no Concílio Vaticano II (decreto Optatam totius, n.º 16), pelo Papa Paulo VI (carta Lumem Ecclesiae) e pelo Papa João Paulo II (encíclica Fides et Ratio). Esta opção fundamental pelo tomismo manifesta-se também na actual Lei da Igreja (Código de Direito Canónico, can. 252 n.º 3); quem são os malandros que andam por aí a estudar teologia sem a orientação do mestre Tomás? Tudo isto para dizer que estou muito agradecido a São Tomás e que aconselho o leitor a ler directamente a sua obra (recomendo especialmente que “ganhe o seu tempo” na consulta da Suma Teológica).

Para reflectir sobre a caridade, São Tomás serve-se da profunda análise sobre a amizade feita por Aristóteles no seu livro Ética a Nicómaco (livro que recomendo vivamente). É interessante ver que, para São Tomás, a caridade é uma forma de amizade (sobrenatural) com Deus e com o próximo. Aristóteles explica no seu livro que a amizade implica uma certa igualdade de condição e que ela estabelece uma certa igualdade numa relação (mesmo entre mestre e escravo). Portanto, o Filósofo conclui que é impossível ser Amigo de Deus… Aristóteles era muito inteligente, mas ninguém podia ter previsto a originalidade e o aniquilamento da Encarnação. Deus fez-Se homem e veio habitar entre nós e veio introduzir-nos na amizade divina pelo sacrifício da Cruz, eis o grande mistério da Nossa Fé. A caridade é uma amizade com Deus. Esta frase poderia alimentar horas e horas da nossa meditação…

Em verdade, em verdade vos digo que «no fim da nossa vida seremos julgados quanto ao amor» (na verdade é São João da Cruz que nos diz no seu Manuscrito de Andújar). Se é quanto ao amor (que praticámos) que vamos ser julgados, mais vale sabermos um bocadinho melhor em que é que consiste o verdadeiro amor. Vamos a isso!

 

 

Caridade

 

A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. A caridade é superior a todas as virtudes: podemos ter tudo, mas, se não temos a caridade… não temos nada.

A virtude teologal da caridade é o amor de Deus acima de todas as coisas, um amor desinteressado. A caridade faz-nos amar a Deus, não só pelo bem que Ele nos faz, mas também e sobretudo por Ele mesmo, porque Deus é infinitamente amável e infinitamente bom. A nossa caridade pode e deve crescer sempre e cada vez mais.

Deus é infinitamente amável por causa da Sua infinita bondade, Deus é mais amável que todas graças que Ele mesmo nos concede. A caridade faz-nos amar a Deus acima de tudo como um amigo, um amigo que nos amou primeiro: antes de amarmos a Deus, Deus já nos amava (ver na Suma Teológica II-II, qq. 23 a. 46, onde São Tomás fala na virtude teologal da Caridade, consultar sobretudo as questões 23 a 26).

Santa Teresa de Ávila dizia: «Amai o Deus das consolações e não as consolações de Deus». Este conselho espiritual serve para ajudar as almas a progredir na união a Deus. No princípio da vida espiritual normalmente ficamos apegados às consolações sensíveis que recebemos durante a oração; mais tarde, quando as consolações desaparecem, a vontade de rezar também desaparece. Nessa fase da vida espiritual a aridez e a dificuldade em fazer oração são uma prova que exige uma resposta generosa. A virtude da caridade ajuda-nos a rezar mesmo quando custa, não pelas consolações, mas por amor desinteressado, por Deus.

A caridade ordena os actos de todas as outras virtudes para Deus. A caridade vivifica e torna meritórias (dignas de mérito) as nossas acções. A caridade é a nossa grande força sobrenatural, a força do amor que ultrapassou durante séculos de perseguição os obstáculos mais difíceis. Mesmo as crianças mais frágeis, como os Santos Pastorinhos de Fátima, são um testemunho da força heróica da caridade. Quando falamos em virtudes heróicas, não falamos do heroísmo da mitologia grega e romana, dos heróis da Antiguidade. Não estamos a falar de Aquiles, Hércules e de Perseu, que andavam à luta com os deuses e que faziam “trinta por uma linha”. Estamos a falar do heroísmo cristão! Do heroísmo de São Maximiliano Kolbe, do Padre Pio, dos Pastorinhos de Fátima e por aí em diante!

Para percebermos o que é o heroísmo cristão, precisamos de perceber que a vida cristã consiste especialmente na caridade que une a alma a Deus. O valor de um acto não consiste apenas na dificuldade em efectuar esse acto. Quando falamos de heroísmo, pensamos logo em coisas difíceis, mas, na verdade, é principalmente a caridade com que agimos que dá valor aos nossos actos. É o amor de Deus e do próximo que pomos em cada acto que lhe dá valor e um «sabor a vida eterna» ou «um peso de glória», como diria São Paulo (na Suma Teológica I-II q. 114 a. 4, São Tomás de Aquino fala especificamente da relação entre o mérito e a caridade, afirmando claramente: «o mérito consiste principalmente na caridade»).

O homem iluminado pela fé aproxima-se de Deus com duas asas: a da esperança e a do amor. Quando o homem peca mortalmente, quando se ama mais a si mesmo do que a Deus, perde a graça santificante e a caridade, expulsando Deus do seu coração. No entanto, a misericórdia divina conserva-lhe a fé infusa e a esperança infusa desde que não tenha pecado mortalmente contra essas virtudes. Nesse caso, um homem em pecado mortal conserva ainda a luz que indica o caminho a seguir (a fé permanece) e ainda se pode confiar à infinita misericórdia de Deus para lhe pedir a graça da conversão (a esperança permanece). A maior destas três virtudes teologais é a caridade que, juntamente com a graça santificante, deve durar eternamente. «A caridade», diz São Paulo, «nunca há-de acabar […]. Por agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior delas é a caridade» (1 Cor 13,8-13). A caridade durará para sempre, mesmo quando a fé tiver desaparecido para dar lugar à visão e quando à esperança suceder a possessão — sem fim — de Deus conhecido claramente.

 

 

O amor de conformidade à vontade divina

 

São Tomás diz-nos (Suma Teológica II-II, q. 23, a. 1) que a caridade é essencialmente um amor de amizade que nós devemos ter com Deus devido à Sua infinita bondade que irradia sobre nós e nos vivifica atraindo-nos para Ele. É o próprio Cristo que nos diz: «Já não vos chamo servos, mas amigos» (Jo 15,15).

A verdadeira amizade deve ter três características:

  1. Deve haver amor de benevolência: querer o bem do outro como a si mesmo;
  2. Deve ser mútua ou recíproca: os amigos devem querer o bem um do outro e, quanto mais elevado for bem que eles desejam um ao outro (por exemplo a santidade, ou seja a união com Deus), mais nobre será essa amizade;
  3. Implica uma vida em comum: uma vida em comum implica necessariamente uma comunicação, ou seja, implica a troca dos sentimentos mais íntimos e mais secretos.

 

Amor de benevolência mútuo entre Deus e o Homem:

  • Da parte do Homem: a caridade recebida no baptismo é precisamente esse amor mútuo de benevolência que nos faz querer para Deus o bem que lhe convém: o Seu reino estabelecido no fundo das nossas almas (nas nossas inteligências e nos nossos corações);
  • Da parte de Deus: Deus quer o nosso bem no tempo e na eternidade.

 

Uma vida em comum com Deus:

Através da graça santificante, Deus comunica-nos uma participação da Sua vida íntima, porque a graça é a semente da vida eterna que é a participação perfeita na vida íntima da Santíssima Trindade.

Podemos esboçar uma lista de alguns sinais objectivos do progresso na virtude da caridade:

  1. Não ter consciência de ter cometido um único pecado mortal;
  2. Não ambicionar as coisas terrenas (prazeres, riquezas, honra, poder, fama…);
  3. Gostar de estar na presença de Deus e amar, elevando-se até Deus através da oração;
  4. Querer agradar a Deus mais do que a todas as outras pessoas, mesmo aquelas de que mais gostamos;
  5. Amar efectivamente o próximo, apesar dos defeitos que ele possa ter e apesar dos nossos próprios defeitos, e amar o próximo porque ele é filho de Deus e amado por Deus.

Como a caridade ultrapassa completamente as capacidades da natureza humana (e da natureza angélica também), ela não depende das nossas disposições naturais, mas apenas da graça do Espírito Santo, que nos concede este dom tão grande (Suma Teológica II-II, q. 24, a. 3).

O amor de conformidade consiste em querer tudo aquilo que a bondade divina nos mostra como sendo a Sua vontade. Deus mostra-nos a Sua santíssima vontade de três maneiras:

  1. Através dos seus preceitos (mandamentos);
  2. Através de conselhos que são conformes à nossa vocação;
  3. Através dos vários acontecimentos da nossa vida, sendo que muitos deles são difíceis e inesperados.

A conformidade à vontade divina consiste sobretudo em amar os sofrimentos e as aflições por amor a Deus (e não em si mesmas, porque isso é o masoquismo; devemos amar a cruz pelo fruto espiritual que daí resulta e pela paciência que ganhamos ao suportá-la), é este o nível mais alto da caridade. Quando soubermos levar a nossa cruz com amor, até as coisas desagradáveis que nos acontecem se converterão em bem, porque, como diz, São Paulo: «tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8,28) e que perseveram no Seu amor.

São Francisco de Sales dá-nos um excelente conselho para progredir na caridade: «Podemos combater o desejo das riquezas e as tentações carnais e mortais de duas maneiras: ou pelo desprezo que essas coisas merecem ou pelo desejo das coisas imortais; e, através deste segundo meio, o amor sensual e terreno é arruinado pelo amor celeste… É assim que o amor das coisas divinas submete e supera os apegos e as paixões.»

 

 

A caridade fraterna, difusão do amor de Deus

 

A santidade consiste no cumprimento do mandamento do amor. Quando perguntaram a Jesus: «Qual é o maior mandamento que há na Lei?» (Mt 22,36), Jesus responde: «Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente: tal é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A estes dois mandamentos está ligada toda a Lei, bem como os Profetas» (Mt 22,37-40).

«Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, é assim que reconhecerão que vós sois Meus discípulos» (Jo 13,35).

Jesus é radical no amor. A virtude da caridade não é uma justa medida entre dois extremos opostos: na caridade não há excessos e Jesus chega mesmo a dizer que devemos amar os nossos inimigos (Mt 5,44-48). Jesus é o modelo perfeito da caridade: na Cruz Jesus reza por todos aqueles que O crucificam (nós estamos incluídos nesse grupo), dizendo: «Pai, perdoa-lhes pois eles não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Amar os inimigos é uma exigência inaudita, é verdadeiramente a marca da sobrenaturalidade da caridade.

Para perceber melhor a excelência desta virtude cristã, convém fazermos a distinção entre amor natural e amor sobrenatural:

  • O amor natural faz-nos amar o próximo pelas suas qualidades naturais e pelos benefícios que recebemos dele, é o tipo de amor que há entre camaradas;
  • O amor sobrenatural faz-nos amar todos os homens (de maneira concreta amando o nosso próximo), mesmo os nossos inimigos, porque eles são chamados a tornarem-se filhos de Deus e, por isso, devemos desejar-lhes a mesma felicidade eterna que desejamos para nós mesmos.

Há uma pergunta que pode surgir: mas como é que é possível amar os homens, que são tão imperfeitos, com um amor divino tão sobrenatural?

Resposta: São Tomás (Suma Teológica II-II, q. 23, a. 1, ad. 2.º) responde-nos com um exemplo muito simples: aquele que ama muito o seu amigo ama com um amor igual os filhos desse amigo: ele ama os filhos porque ama o pai deles, e por causa dele ele quer o bem deles. Devido ao amor que ele tem pelo pai deles, se for preciso, há-de os ajudar nas dificuldades e há-de os perdoar se eles o ofenderem. Eis a razão para amar todos os filhos de Deus! Nós devemos amar os homens porque todos eles são chamados a ser filhos de Deus. Por amor ao Pai amamos por extensão os filhos.

Na verdade, há uma só virtude da caridade. O seu acto principal é amar a Deus sobre todas as coisas e os seus actos secundários consistem em amarmo-nos a nós mesmos e ao próximo por amor de Deus.

A caridade leva-nos a amar a Deus nos homens e os homens em Deus. Mas, para podermos amar assim o nosso próximo enquanto filho de Deus ou enquanto chamado a tornar-se filho de Deus (os não-baptizados), temos de olhá-lo com os olhos da fé e dizer interiormente: “esta pessoa, esta alma é ou será o Templo do Espírito Santo, a casa da Santíssima Trindade que eu adoro e sirvo!”

A caridade consiste em estender o amor desinteressado de Deus até ao próximo (Suma Teológica II-II, q. 25, a. 1).

A melhor maneira de fazer crescer a nossa caridade fraterna é querer o bem do próximo e fazer o bem ao próximo. Para querer o bem do próximo é preciso olhar para ele à luz da fé e não o julgar injustamente e precipitadamente. Para fazer o bem ao próximo é preciso amá-lo efectivamente e isto pode-se fazer de várias maneiras, por exemplo:

  1. Suportando os defeitos dos outros, porque Deus permite o mal por um bem maior;
  2. Servindo os outros;
  3. Respondendo ao mal com o bem;
  4. Evitando a inveja;
  5. Pedindo a Deus a união dos espíritos e dos corações.

Durante a nossa vida terrena o amor de Deus vale mais do que o conhecimento de Deus, porque o conhecimento de Deus, de certa forma, reduz Deus às nossas capacidades de compreender (movimento descendente), enquanto o amor de Deus eleva-nos e aproxima-nos de Deus (movimento ascendente). A caridade é a maior de todas as virtudes e é aquela que mais nos une a Deus porque «Deus é amor» (1 Jo 4,8).

 

 

Resumindo

 

  • A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo (desinteressadamente) e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus;
  • A caridade faz-nos amar a Deus acima de tudo como um amigo. A verdadeira amizade implica três coisas: querer o bem do outro (benevolência), amar de volta (reciprocidade) e comunicação (uma vida em comum);
  • É principalmente a caridade com que agimos que dá valor aos nossos actos. É o amor de Deus e do próximo que pomos em cada acto que lhe dá valor e um “sabor a vida eterna”;
  • Cristo é o modelo perfeito da caridade. A caridade é um amor sobrenatural que deve estender a todos os homens. O amor de Deus deve concretizar-se no amor ao próximo.

 

Podemos acabar esta reflexão sobre a caridade com a seguinte oração:

Meu Deus, amo-Vos com todo o meu coração e sobre todas as coisas, porque Vós sois infinitamente bom e infinitamente amável; e amo o meu próximo, como a mim mesmo, por amor de Vós.

 

 

Conclusão

 

Em modo de conclusão, gostaria de recapitular o que foi dito nestes cinco artigos:

As virtudes teologais são virtudes infusas que têm Deus por objecto. Deus é o nosso fim último sobrenatural e é através da fé, da esperança e da caridade que nós entramos em contacto com Deus. É por isso que nós lhes chamamos virtudes teologais, porque são infusas por Deus e porque nos permitem chegar até a Deus. As três virtudes teologais são o eixo da vida espiritual. É muito importante ao longo do nosso dia fazermos actos de fé, de esperança e de caridade. As virtudes teologais não podem ser adquiridas pelo nosso próprio esforço, elas são uma graça de Deus; no entanto, elas podem ser cultivadas para crescerem cada vez mais. As três virtudes teologais são todas muito importantes e estão interligadas, mas é a caridade que deve reinar.

Por último, gostaria de insistir mais uma vez, o leitor perdoar-me-á, que sem vida de oração diária, sem silêncio e contemplação, é impossível cultivarmos as virtudes teologais e chegar ao Céu. De que serve toda a nossa actividade, se não for de Deus e para Deus? «De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?» (Mt 16,26).

A oração que o Anjo ensinou aos Pastorinhos de Fátima contém as três virtudes teologais e é uma belíssima síntese daquilo que deve ser a nossa vida espiritual: crer, adorar, esperar, amar e pedir pelos que não o fazem.

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.